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O maxilar

 

Ele estava muito nervoso. Era a primeira vez que saía depois de ter colocado o aparelho ortodôntico. Sua boca doía como doem as costas de um estivador em dia de descarregar muamba contrabandeada. Junto com os amigos, entrou na boite. Pessoas por todos os lados e o clima de azaração era total. Ele não namorava desde que a Marlene o havia deixado e, antes disso, nunca o havia feito. Ah, Marlene, você foi o primeiro e único amor.

A música de bate-estacas servia para aumentar sua tensão. Como as pessoas conseguem conversar escutando essa desgraça? Onde foi parar a melodia? Onde foi parar as letras? Onde foi parar o Hall’s? Ele fumou um cigarro, pela segunda vez, e imaginava estar com o bafo de um urubu em dia de festa, quando são descarregados no lixão os dejetos da indústria alimentícia. Não achou o Hall’s.

-Carlos, você tem Hall’s? - Perguntou ao seu amigo, que já estava se engraçando para uma loirinha que rebolava sensualmente.

-O que? - Não escutou a pergunta, o Carlos.

-Você tem Hall’s? - Insistiu -Isso aí no seu bolso é um Hall’s?

-Hahahahaha. Boa, você me pegou... - Pegou o que? O jovem não entendeu a resposta irônica de Carlos. E poucos são os que entendem.

Ele continuou fazendo cara de quem está se divertindo, imaginando que todos estivessem fazendo o mesmo pois aquela multidão não podia estar realmente se divertindo. Foi quando notou a presença de uma linda moça logo ao seu lado. Ela era espetacular, em beleza e aroma. O perfume que usava não tinha o ranço de suor que pairava no ar. Ele ficou mais nervoso. Se coçou, se mexeu e não soube onde colocar as mãos.

-Carlos, Carlos, hei cara!! Carlos. - Gritou! -Carlos.

-Quié cara? - Carlos estava mais preocupado com o requebro da loirinha.

-Olha que gata! - Apontou para a moça. -Aí se ela me desse bola...

-Por que? Você é jogador de futebol para ficar querendo bola? Vai à luta, rapaz. Chega junto da garota.

-Eu? Você está louco? Nunca! Eu não saberia o que dizer.

-Diz a primeira bobagem que vier na sua cabeça. - E Carlos empurrou o amigo na direção da garota.

O jovem rapidamente traçou um plano e idealizou a frase com que abordaria a moça. Seria: oi, já não nos conhecemos antes? Mas e se ela dissesse que não? Então desculpa. E iria embora, levando consigo seus sonhos. Não, era melhor formular outra frase. Oi, tudo bom? Posso te conhecer melhor? Não, péssima escolha. Ela poderia cortar na hora, dizendo um retumbante não. Você é a nora que mamãe pediu a deus. Não, de jeito nenhum. Então deixa ver...

-Oi. - Disse a garota.

-Oi! - Repete a garota.

-Hei, oi! -Fala, enfaticamente, a moça.

-É comigo? - Pergunta o jovem, olhando para os lados procurando alguém com quem a garota pudesse estar falando.

-É, é contigo. Tudo bem? - Sorri a moça. Ela não devia ter feito isso. Fica mais linda que o normal.

-Tudo, tudo...

-Qual o seu nome?

-Marcelo. Marcelo Cezário. - O coitado estava tremendo. Não sabia o que falar. -Ao seu dispor. -Ai, devia ter ficado calado.

-Quanta gentileza. - E a moça, que era chamada de Fernanda, começou a puxar um despretensioso e perigoso papo. Perigoso para o Marcelo, pois estava trabalhando mentalmente a 150 km/h para não falar nenhuma besteira. Ele tentava ser o mais interessante possível, o mais espontâneo, o mais tranqüilo. Transmitia insegurança, lerdeza e nervosismo.

Por estarem em uma boite, cada frase tinha que ser gritada. Para descansar um pouco, a moça fez silêncio. Para Cezário foi pior que a morte. Imaginou ter falado alguma idiotice imperdoável ou ter cometido mais alguma gafe. Resolveu partir para o ataque. Passar uma cantada. Entrar na área, se fosse derrubado seria pênalti e se não, bem, teria ao menos tentado.

-E então, Fernanda, qual é a do nosso lance? -Ai, que droga. Eu nunca falo gírias e agora sai essa besteira.

-Que lance? - Não entendeu, a Fernanda, o que o pobre Marcelo quis dizer.

-A...- Ele ia falar a nossa relação, mas se lembrou que não tinha relação nenhuma com a distinta, então travou a frase. Para seu desespero, seu maxilar se deslocou com o brusco movimento.

-A.. - Ele tentou dizer algo, mas com a boca aberta a única coisa que saía eram as letras vogais do alfabeto. -A...O...E...O...A ...U. - Desistiu de falar. A situação estava ridícula demais. Ele colocou a mão na frente da boca e virou-se para o Carlos, que estava no maior papo com a loirinha, embora a loirinha estivesse no maior desprezo para com ele.

-A...A...A...Ao.

-Que foi, cara? Não me aluga agora.

-A..Ao...Uoaoaei. - Ele gesticulava, de costas para Fernanda, apontando sua boca escancarada e fechava a mão, movimentando-a rapidamente.

-O que foi? Briga? Com quem? - Perguntou o exaltado Carlos. -Me mostra quem é que eu meto a mão. Não, não é briga. Fecha a boca para falar. O que? Não consegue? Por que? Hein? Não entendi. O que? Murro? Murro aonde? Na sua boca? Você quer que eu dê um murro na sua boca? Para que?

Para fechá-la, pensou o pobre do Marcelo.

-Eu acho que ele deslocou o queixo. - Interrompeu Fernanda, saindo de trás do Cezário. - Ele me perguntou um coisa e de repente sua boca abriu e travou nessa posição. - Explicou, para desalento de Marcelo, que ainda guardava esperanças dela não ter notado. Ilusão.

-O que? Você deslocou o queixo? Estava cantando a mina e deslocou o queixo? Hahahahahahaha. - Caiu na gargalhado o satírico e nada companheiro Carlos. -Que comédia! Que situação ridícula! Que lástima para você! Que diversão para mim quando eu espalhar para todo mundo que você literalmente ficou de queixo caído por essa garota. - E ria cada vez mais.

Marcelo estava com vontade de chorar, mas não o fez pois se estava difícil ficar controlando a saliva dentro da boca, o que dirá de lágrimas e meleca fora dela.

-Quiá, quiá, quiá. - Ria Carlos. - Alguém tem uma máquina fotográfica por aí. - Nesse momento, os quatro já estavam cercados de curiosos. Alguns preocupados com o pobre Marcelo e com sua bocarra aberta, mas a maioria estava ali para rir do infeliz.

Foram todos para o hospital. Carlos dirigia, com a loirinha muda ao seu lado, Fernanda e o desiludido Cezário com ela no banco de trás.

-Rápido, uma maca de queixo! O maxilar do meu amigo despencou! - Carlos não dispensava a gozação. Se Marcelo pudesse falar, diria um palavrão.

Veio um médico e tentou colocar o queixo do rapaz no lugar, mas não conseguiu.

-Então aproveita e faz uma obturação no siso dele que dá para ver daqui. - Divertia-se Carlos.

Vieram enfermeiros, paramédicos, atendentes e até os funcionários da limpeza, para dar um palpite de como ajustar o queixo de Marcelo. Ele pensava para qual país iria se mudar depois de ter seu problema resolvido. Talvez a China...

Todos tentaram suas técnicas, mas nada deu resultado. Fernanda, irritada com a falta de capacidade dos profissionais, segurou uma mexa de seus cabelos e cutucou o nariz do jovem.

-Athim...AAAAi, oh, oh! - O espirro colocou o queixo de Marcelo no lugar. Não sem muita dor.

-Como disse aquele filósofo: ai, como dói! - Marcelo estava tão chateado que percebeu que ironizar a própria situação seria o melhor a fazer. - Pensei que fosse ficar assim para sempre. Eu ia virar atração turística e entrar para o Guinnes. Talvez arranjasse emprego como modelo de arcada dentária em congressos de dentistas. Ou então talvez me tornasse lanterninha de cinema, pois ninguém consegue ver a cara desse pessoal.

E foi assim que Marcelo Cezário arranjou sua segunda namorada e tornou-se uma pessoa mais descontraída e feliz. Ele namorou a loirinha muda, que achou a situação divertidíssima.

O que aconteceu com a Fernanda e com o Carlos, bem, eles se encontraram uma semana depois, em outra boite, e Carlos a perguntou qual era a do lance deles. Ela caiu na gargalhada.

 

fin

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